sexta-feira, novembro 16, 2007

Colossenses 1:9-14, Parte 7


Esse ensino bíblico requer que revisemos algumas das formulações teológicas tradicionais que erroneamente exaltam as doutrinas da finitude e depravação humana acima das doutrinas da revelação e salvação. O motivo de não alcançarmos ou recebermos é um assunto, mas o que há para ser alcançado ou recebido é outro. Não devemos reduzir a graça de Deus e a obra de Cristo ao nível do nosso fracasso e incredulidade. Paulo diz que o dom de Deus é maior que o pecado do homem:

Entretanto, não há comparação entre a dádiva e a transgressão. Pois se muitos morreram por causa da transgressão de um só, muito mais a graça de Deus, isto é, a dádiva pela graça de um só homem, Jesus Cristo, transbordou para muitos! Não se pode comparar a dádiva de Deus com a conseqüência do pecado de um só homem: por um pecado veio o julgamento que trouxe condenação, mas a dádiva decorreu de muitas transgressões e trouxe justificação. Se pela transgressão de um só a morte reinou por meio dele, muito mais aqueles que recebem de Deus a imensa provisão da graça e a dádiva da justiça reinarão em vida por meio de um único homem, Jesus Cristo. (Romanos 5:15-17)


Visto que a presente discussão concerne à plenitude do conhecimento espiritual, é apropriado considerar a doutrina da incompreensibilidade de Deus em relação ao que foi dito acima. Alguns cursos em dogmática começam sua apresentação dos atributos divinos com a incompreensibilidade de Deus, e de uma maneira que estabelece um tom pessimista para o empreendimento teológico inteiro.
Isso é contrário ao padrão bíblico.

Considere o exemplo de Romanos 11:33-35, uma passagem freqüentemente citada em relação à incompreensibilidade de Deus: “Ó
profundidade da riqueza da sabedoria e do conhecimento de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos e inescrutáveis os seus caminhos! ‘Quem conheceu a mente do Senhor? Ou quem foi seu conselheiro?’ ‘Quem primeiro lhe deu, para que ele o recompense?’.” É abusar da passagem torná-la um ponto de referência absoluto, como se permanecesse sozinha na Escritura, ou fazer dela o ponto de partida da nossa teologia. O motivo é que, quando consideramos a passagem no contexto, observamos que ela aparece na conclusão de uma longa e extensiva seção doutrinária na qual Paulo expõe todo o escopo da teologia cristã, incluindo a criação divina, a depravação humana, o julgamento presente e futuro, a representação federal de Adão no pecado, a expiação vicária de Cristo na redenção, a justificação pela fé (e não pelas obras), a santificação pelo Espírito, a predestinação e muito mais. Por volta de Romanos 11:33, Paulo tinha resolvido toda questão que ele tinha levantado, incluindo aqueles tópicos que muitos teólogos insistem chamar de mistérios e paradoxos, mesmo em desafio contra a Escritura, tais como o propósito e justiça de Deus na eleição (Romanos 9), e seus decretos soberanos (Romanos 10-11).

Charles Hodge pensa que a passagem afirma “o caráter incompreensível e a excelência infinita da natureza e dispensações divinas”, e que “podemos apenas nos maravilhar e adorar. Nunca podemos entender”. Contudo, isso não é de forma alguma o que a passagem sugere. Quer estejamos considerando o contexto imediato de Romanos 11 e Romanos 9-11, ou todo o material anterior de Romanos 1-11, o que exatamente não entendemos? O que Paulo não explicou? Ele abordou e resolveu todas as questões que levantou com pleno conhecimento e confiança.

Se entendemos ou não Paulo é outro assunto – eu disse que podemos, mas agora esse não é o nosso tópico. E se não entendemos Paulo, ainda não podemos atribuir isso à incompreensibilidade de Deus, visto que Paulo não parece ter problema em entender as coisas que escreve, de forma que não é impossível em princípio entender tudo o que ele expõe na carta. Agora, se Hodge quer dizer que Deus não pode ser “plenamente compreendido”, então poderíamos concordar (todavia, com as qualificações que discutiremos mais tarde), mas certamente é errado dizer que “podemos apenas nos maravilhar e adorar.
Nunca podemos entender”. Isso não é o que acontece em Romanos. Em Romanos, nos maravilhamos e adoramos porque entendemos Romanos 1 a 11 – tudo ali.

Consideremos Romanos 11:33-35 em seu contexto imediato. Ele escreve no versículo 25: “Porque quero que entendam este mistério” (ESV). Nosso propósito não requer que consideremos o mistério em si, mas somente que Paulo desejava que seus leitores entendessem o que ele chama de mistério. Como nas outras ocasiões em que usou a palavra, mistério não se refere a algo que é intelectualmente inatingível no sentido técnico, da forma como um cálculo poderia ser para uma criança. Antes, mistério é algo que podemos entender, mas, pelo menos por um período de tempo, não nos foi contado ou explicado.

Eu poderia pensar num número entre 1 e 100.000, e enquanto eu recusar revelá-lo, ele permaneceria um “mistério” para você. Mas você não teria dificuldade em entender caso eu lhe dissesse o número. Mistério na Escritura não indica algo que não possamos entender por causa da nossa compreensão limitada, mas a algo que não podemos descobrir, a menos que nos seja transmitido e explicado por revelação. Então, podemos entendê-lo, em muitos casos, sem qualquer dificuldade. Assim, Romanos 11:33-35 poderia estar expressando um senso de apreciação e maravilha pelo que Paulo tinha acabado de explicar e que acabamos de entender (seja em Romanos 11, 9-11, ou tudo de 1-11). Mas ele não deixa nenhuma questão sem resposta para 11:33-35 expressar uma incapacidade de descobrir ou entender algo.

Em particular, considere 11:34, que procede de Isaías 40:13. Paulo também cita o versículo em 1 Coríntios 2:16. Mas logo após o mesmo, ele adiciona: “Nós, porém, temos a mente de Cristo”. E no versículo 12 escreve: “
Nós, porém, não recebemos o espírito do mundo, mas o Espírito procedente de Deus, para que entendamos as coisas que Deus nos tem dado gratuitamente”. Seu ponto é que não podemos conhecer a Deus e os seus caminho à parte de sua Palavra e Espírito (1:21), mas porque ele nos deu sua Palavra e Espírito, entendemos – muito bem, de fato (2:6-10, 13-16), pois “Deus o revelou a nós por meio do Espírito” (2:10).

É mais que provável que Paulo está fazendo um ponto similar com Isaías 40:13 e Romanos 11, isto é, não dizer que não podemos entender, mas dizer que podemos e entendemos, e ao mesmo tempo expressar maravilha diante do que já entendemos. E como em Coríntios 1-2, seu uso também transmite a suposição que não podemos entender a Deus e os seus caminhos sem ou além do que ele relevou – MAS, ele de fato revelou e explicou para nós tudo o que Paulo escreveu, e isso inclui a maioria, se não todos os tópicos que os teólogos freqüentemente chamam de misterioso, paradoxal e incompreensível. Paulo usa Isaías 40:13 para enfatizar a abundância de informação revelada aos crentes e o potencial deles para entendê-la, toda ela.

Paulo não começa sua carta aos Romanos com a incompreensibilidade de Deus, mas chamando a atenção para o quanto já sabemos agora sobre Deus – mesmo os incrédulos tentam suprimir este conhecimento – ao invés de quão pouco podemos saber sobre ele. Na verdade, para muitas pessoas, sua visão do nosso conhecimento é muito otimista para confrontar. Ele declara que até mesmo os incrédulos não podem fugir do conhecimento sobre este Deus, incluindo seu poder e sabedoria na criação (Romanos 1). Mesmo alguns dos princípios morais são inatos no homem (Romanos 2). Por toda parte vemos os incrédulos serem chamados corretamente de ignorantes sobre Deus, visto que suprimem o que sabem sobre ele, e não o conhecem no sentido de ter um relacionamento positivo com ele. Nesse instante o ponto é que Paulo não começa sua carta – ou, nessa questão, quaisquer de suas apresentações – com a incompreensibilidade de Deus. Mas descobrimos que ele freqüentemente começa com a cognoscibilidade de Deus, especialmente quando diz respeito aos cristãos – eles podem e de fato conhecem a Deus, e podem e possuem conhecimento extensivo e correto sobre ele.

Ele escreve em 1 Coríntios 1:21: “Visto que, na sabedoria de Deus, o mundo não o conheceu por meio da sabedoria humana, agradou a Deus salvar aqueles que crêem por meio da loucura da pregação”. Deus não pode ser descoberto ou entendido por meio do esforço humano somente, à parte da revelação. Deus se revela por meio do evangelho, que salva aqueles que crêem. Os incrédulos de fato possuem um conhecimento inato de Deus, um conhecimento que Deus colocou neles. Eles não o obtém por sua sabedoria humana. E eles são na verdade tão estúpidos que muitos deles negam esse conhecimento, mesmo quando as suposições no discurso e conduta deles denunciam o contrário. Esse conhecimento universal é suficiente para condená-los, mas insuficiente para iluminá-los para a verdade e produzir fé para com Cristo.

Nosso foco principal, contudo, é sobre como a incompreensibilidade de Deus se aplica aos cristãos. E descobrimos que mesmo antes de 1:21, no início da carta, Paulo diz
: “Pois nele vocês foram enriquecidos em tudo, isto é, em toda palavra e em todo conhecimento, porque o testemunho de Cristo foi confirmado entre vocês” (1 Corinthians 1:5-6). Então, no final do segundo capítulo, após citar Isaías 40:13, um versículo freqüentemente usado para afirmar a incompreensibilidade de Deus, ele adiciona: “Nós, porém, temos a mente de Cristo” (2:16). Tudo isso – que embora os incrédulos saibam sobre ele, negam-no, mas que os crentes o conhecem através de sua auto-revelação – é consistente com o que dissemos sobre Romanos 1-2 e 11.

Tomamos outro exemplo do discurso de Paulo aos gregos na Colina de Marte, como registrado em Atos 17. Ali ele começa com uma afirmação confiante de seu próprio conhecimento sobre Deus em contraste com a ignorância dos não-cristãos (v. 23). O restante do seu discurso traz uma semelhança notável com muitas das nossas dogmáticas em esboço e conteúdo. Podemos multiplicar os exemplos. A carta aos Hebreus começa chamando atenção para a revelação verbal de Deus entregue através dos profetas, e agora por meio do Filho (Hebreus 1:1-2). Assim, ela começa com a nossa extensa e crescentemente clara base de dados de conhecimento espiritual, não com ignorância ou
incompreensibilidade divina. E João começa sua primeira carta afirmando contato físico com Cristo, a quem, à parte de sensação (Mateus 16:17; João 6:45; 1 Coríntios 2:9-10), ele reconheceu como a Palavra da Vida (1 João 1:1-3). Assim, ele começa com uma afirmação de conhecimento e entendimento direto, não com a ocultação ou incompreensibilidade de Deus.


Tradução: Felipe Sabino de Araújo Neto (novembro/2007)

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