sexta-feira, novembro 16, 2007

Colossenses 1:9-14, Parte 6

Há três observações que podemos fazer em conexão com isso. As duas primeiras são dois lados da mesma questão, e a terceira nos levará a uma discussão separada.

Primeiro, Paulo ora para que os crentes recebessem sabedoria espiritual com o intuito que essa também produziria boas obras. O fruto natural da sabedoria piedosa é uma vida piedosa, pois essa sabedoria tem dentro dela o conhecimento que define piedade, o entendimento que essa é a maneira como devemos viver, e a percepção em concordar com tudo o que Deus revelou. Assim, a verdadeira sabedoria leva à conduta piedosa, mas o que parece ser uma conduta piedosa é somente tal se for um produto da sabedoria de Deus. Uma conformidade exterior a um preceito de Deus que esteja baseada num motivo mau, ou num falso entendimento, não é piedosa de forma alguma. A conformidade nesse caso é incidental e não intencional. Além do mais, uma vida piedosa não é caracterizada pelo altruísmo somente, mas também por perseverança, paciência, alegria e gratidão.

O primeiro ponto é provavelmente aceitável para a maioria e amplamente enfatizado, mas no segundo ponto devo desafiar um ensino comum. Essa é a idéia que se o conhecimento não levar às boas obras, então o conhecimento é inútil, e se a teologia de alguém não produzir santidade, então a teologia é defeituosa. Juntamente com isso vem a afirmação que o conhecimento está necessariamente amarrado à piedade, e que o único propósito da teologia é produzir uma vida piedosa. (Existem variações desse ensino, mas a idéia básica é a mesma.) Contudo, a Bíblia não ensina isso.

O que acabamos de mencionar é freqüentemente afirmado sobre a base de passagens como Colossenses 1:9-14, na qual Paulo de fato pede sabedoria espiritual para os seus leitores, para que eles “frutifiquem em toda boa obra”. Mas essa é uma inferência falsa e um uso inapropriado da passagem. Contrário ao ensino popular, essa relação não se sustenta da mesma forma quando é revertida – o fato da teologia intentar produzir piedade não torna a teologia inútil quando não existe piedade. Não há necessidade de explicação detalhada. A idéia está simplesmente ausente da passagem.

Nem mesmo 1 Coríntios 13 apóia o ensino. Ali Paulo diz: “Ainda que eu… saiba todos os mistérios e todo o conhecimento… se não tiver amor, nada serei”. Ele não diz que o conhecimento não é nada, ou que a capacidade de saber não é nada, mas que a pessoa que não tem amor não é nada. Teologia é uma revelação da mente de Deus, e como tal possui valor intrínseco, de forma que denegri-la beira a blasfêmia, se já não o for. Quando existe teologia sadia e nenhuma conduta correta, denigramos a pessoa – ela é inútil e desprezível – e não a teologia.

Terceiro, Paulo ora para que os cristãos sejam “cheios do conhecimento da sua vontade, em toda a sabedoria e inteligência espiritual” (ACF). Diferente de muitos crentes, que exibem humildade fingida ou incredulidade genuína, o apóstolo ora para que seus leitores sejam cheios de conhecimento em toda a sabedoria. Ele pede o máximo para eles – a plenitude – em termos da natureza do conhecimento e a capacidade deles conter e compreendê-lo.

Sem dúvida, mesmo o nosso máximo tem um limite (1 Coríntios 13:12), mas o apóstolo coloca esse limite bem adiante, muito além daqueles que exaltam a doutrina da nossa “mente humana finita” acima da generosidade e promessa de Deus (Tiago 1:5), e seu poder na conversão. Essa plenitude de toda a sabedoria é extensa o suficiente que, se obtida, capacita-nos a “em tudo… agradá-lo, frutificando em toda boa obra” (Colossenses 1:9-10), servi-lo com “todo o poder” e “toda a perseverança” (v. 11). A oração de Paulo é por plenitude em conhecimento, santidade e poder. Visto que essa oração foi escrita sob inspiração divina, mesmo se não obtivermos tal plenitude, nunca devemos sugerir que isso seja impossível em princípio.

Tradução: Felipe Sabino de Araújo Neto (novembro/2007)

Nenhum comentário: