Deixe-me usar a Bíblia Chinesa (United Bible Society, 1988) para ilustrar um ponto. Em 1Pedro 1:2, a tradução chinesa para “pré-conhecimento” significa literalmente “previsão”. No português, a palavra “conhecer” pode se referir a um relacionamento pessoal sem muita dificuldade, de forma que se uma pessoa fosse levar em conta o uso bíblico, ela deveria ser capaz de derivar o verdadeiro significado da palavra sem a ajuda de um estudioso. Se ela é cuidadosa o suficiente para fazer isto é outra questão – o ponto é que a tradução em si não impede o entendimento correto. Por outro lado, a tradução chinesa neste versículo dificilmente pode significar alguma outra coisa que não presciência.
Contudo, por hora, não consigo imaginar uma forma mais simples de oferecer uma tradução “literal” do que limitar seu significado à presciência. Há mais de um verbo na linguagem do receptor que eu posso usar, mas o resultado, ou significa previsão, ver à frente, ou pré-conhecer, conhecer algo de antemão passivamente. Podemos usar o termo chinês para “saber” que se refere a um entendimento pessoal, mas isso seria equivalente a traduzir como “preferido” no inglês, e poderia ter sido definido como uma frase antes que em dois termos chineses, como é no nosso caso. Neste caso, a tradução mais literal da palavra poderia em verdade obscurecer por completo seu sentido real.
Em outro contexto, ou se estivéssemos tratando com outra questão, eu iria recomendar a assim chamada abordagem de “equivalência dinâmica”, e simplesmente traduzir o significado. Mas como estamos tratando da Bíblia, onde a precisão é necessária para manter todas as idéias originalmente previstas, eu sugeriria oferecer a interpretação mais literal ao longo de uma nota de rodapé explanatória. Isso realmente não elimina o problema para a tradução chinesa, desde que alguém deveria ainda se decidir por qual palavra oferecer como sendo a tradução mais proximamente literal. Àqueles que têm acesso à Bíblia chinesa, considere igualmente a tradução de Romanos 8:29.
Então, na Bíblia chinesa, o “conhecer” em Mateus 7:23 é traduzido com uma palavra que pode se referir à familiaridade pessoal. Esta é a escolha óbvia e correta, pois isto é o que a palavra significa aqui, neste contexto, mas note que uma escolha foi feita. No momento, não posso lembrar de uma palavra chinesa equivalente a “conhecer” que possa significar uma consciência pessoal ou impessoal dentro desse contexto. Agora dê uma olhada em Jeremias 1:5 no chinês.
Certamente que não sou contra uma tradução “literal” da Escritura, mas alguns dos proponentes desse método de tradução têm uma visão um tanto quanto ingênua de linguagem, e a eles uma tradução literal é quase uma transliteração do original. Já existem problemas suficientes (não insuperáveis) em se traduzir a Bíblia para o inglês, mas uma vez que se esteja tratando com uma linguagem receptora baseada em caracteres antes que com uma linguagem baseada em alfabeto, que tem diferentes regras gramaticais, não é nem de longe tão fácil ser “literal”.
O que venha a ser considerado “boa” tradução depende do propósito da tradução e da natureza do texto original. Para propósitos gerais como conversações ordinárias e legendas de filmes, a tradução mais “literal” possível é com freqüência também a pior opção possível, e aquela que torna difícil à audiência apreender o significado – “equivalência dinâmica” é o melhor nestes casos.
Vamos tomar um idioma como exemplo. Suponha que eu esteja falando chinês a você por intermédio de um tradutor, e que esteja tentando dizer-lhe que John Smith é, traduzido literalmente, “nem três nem quatro”. Na conversação ordinária, o nosso tradutor seria insensato se fosse dar a você essa tradução literal, ou não dar também explicações. E até que você aprenda o que significa “nem três nem quatro”, não pode assumir que tenha me compreendido quando peço a você que pare de ser “quinze dezesseis”, já que isto significa algo muito diferente. Em muitas situações, a diretriz mais efetiva seria renunciar em absoluto à tradução literal e dizer “Vincent diz que John Smith é uma pessoa dúbia, um tipo obscuro de pessoa”, ou mesmo que ele é “nem peixe nem carne”. A melhor tradução ainda depende do contexto.
Então, há a palavra que, literalmente traduzida, refere-se a “sopro reto” ou “espírito reto”. Essa tradução em si faz sentido e pode se encaixar bem na sentença em que aparece, mas o chinês se refere a uma grande lealdade que tem determinação, que vai longe, mesmo ao ponto de sacrificar a si mesma. É o oposto de um delator, covarde ou traidor.
Você pode encontrar um exemplo desse nobre traço em Jesus (João 18:8), e um exemplo do seu oposto em Judas. Neste caso, a tradução mais literal oferece algo muito diferente do sentido pretendido. No entanto, garantir o sentido pleno iria requerer muitas palavras, e prejudicaria em demasiado o curso da tradução se prescrito ao texto principal. Logo, embora a explicação deva ser preservada, melhor é se relegada às notas de rodapé.
Ainda, o tradutor deveria se decidir por dizer “espírito reto” ou “extremamente fiel” no texto principal. A melhor opção, ao que parece, é pôr “extremamente fiel”, ou “determinado”, ou a tradução mais apropriada com base no contexto, e então incluir nas notas de rodapé qualquer informação mais relevante, tal como a tradução mais literal e uma breve explicação sobre a palavra ou idioma.
Isso dito, o contexto é um tremendo auxílio à interpretação, tal que o leitor não está à mercê de qualquer palavra traduzida ou expressão em particular. Quando Jesus diz “Afasta-te de mim, Satanás!”, é óbvio que a declaração reflete uma atitude negativa para com o diabo, e que Ele não está tão-somente dizendo ao diabo para se colocar fisicamente distante dEle. Assim devemos considerar, ainda que sem qualquer investigação posterior.
Às vezes o contexto é de tal modo enfático que podemos substituir uma palavra por um espaço em branco, e o leitor deve ser ainda capaz de inferir acuradamente o significado daquilo que deve estar ali. No entanto as pessoas dependem em demasia da tradução de palavras individuais que falham em não considerar o curso de todo o contexto, que é com freqüência um indicador muito mais forte do significado pretendido pelo autor. Compreensão pela leitura abrangente é a habilidade mais valiosa na exegese bíblica – a bem da verdade, no entendimento de qualquer documento redigido – mas os intérpretes freqüentemente negligenciam isso porque se distraem com detalhes técnicos, tal que se assumem corretamente um detalhe em particular, ocasionalmente assumem equivocadamente todo o versículo ou passagem.
Talvez algo como um contrato legal fosse requerer grande precisão, porém mesmo neste caso, “precisão” dificilmente pode ignorar o propósito. Ora, se a natureza do original é a Palavra de Deus, na qual toda e qualquer letra é inspirada, significativa e autoritativa, uma tradução deve prover uma imagem ainda mais clara do original. Porém, tanto quanto obscurecer o sentido, será ainda uma tradução pobre. Esta é a razão porque eu, novamente, sugiro uma tradução acurada do original a partir do texto principal acompanhada pelo uso generoso de notas de rodapé de tradução. Acima de tudo, esta é quem sabe a melhor abordagem para a tradução da Bíblia, mesmo resultando num texto de certa forma desajeitado, e esta parece ser a abordagem adotada pela New English Translation (NET).
Infelizmente, há muitos leitores cristãos negligentes, que são ainda mais descuidados quando especialmente tocados pela questão em discussão. Assim, para prevenir mal-entendidos e difamações, deixe-me repetir: sou a favor de uma tradução literal, se vai ao encontro da Bíblia, muito embora essa abordagem não venha a ser a minha primeira escolha quando leva a outros documentos e critérios informais, mas penso que isso é necessário para incrementar o uso de notas de rodapé de tradução. Esta é a essência do ponto que tenho buscado fazer compreender.
Traduzido por: Marcelo Herberts

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