sábado, abril 29, 2006

Comentário sobre 1 Pedro (4)


Pedro diz que os cristãos foram “escolhidos de acordo com o pré-conhecimento de Deus Pai”. Quando completamente removido do contexto do uso bíblico, a palavra portuguesa em si facilmente leva ao mal-entendimento de que a palavra significa nada mais do que previsão ou presciência, uma consciência ou predição do futuro. A partir desta falsa concepção de pré-conhecimento, ela é então um pequeno passo para a conclusão anti-bíblica de que a eleição é baseada numa fé prevista. Isto faz da eleição um pouco mais do que o reconhecimento de Deus daqueles que teriam fé no futuro, de forma que num sentido real, não é Deus quem escolhe os crentes, mas os crentes quem escolhem a Deus por sua fé no evangelho.

Certamente, isto é contrário a todo o padrão do ensino bíblico, e é o resultado de um falso entendimento do pré-conhecimento de Deus. Contudo, antes de explicar o significado bíblico de pré-conhecimento, podemos apontar que até mesmo esta falsa visão não necessariamente destrói a doutrina bíblica da eleição, ou a visão de que é Deus quem soberanamente escolhe aqueles que seriam salvos sem qualquer consideração de fé ou mérito previsto neles.

A falsa visão da eleição toma o pré-conhecimento como significando uma presciência passiva. Isto é, eles tomam-na como significando que Deus passivamente descobre o que suas criaturas decidiriam no futuro aparte do seu controle soberano, e então ele faz uma decisão com respeito ao status destas criaturas sobre a base desta consciência. Mas isto significa que sua decisão com respeito ao status destas criaturas é, num sentido real, determinada por estas próprias criaturas, aparte da decisão soberana de Deus de fazer uma distinção entre elas. Pode ser dito que Deus ainda é aquele que determina os princípios pelos quais os homens devem ser salvos, mas são os próprios homens que decidem quem receberá a salvação.

O problema com esta visão é que, mesmo que permitamos que pré-conhecimento significa uma presciência passiva, o argumento permanece incompleto e fútil. Este é o porquê nossos oponentes devem estabelecer algo mais também, a saber, que a fé não é um dom de Deus, mas é algo gerado pelas próprias criaturas. De outra forma, se a fé é um dom soberano de Deus como a Bíblia ensina, então, Deus basear a eleição sobre uma fé prevista seria simplesmente outra forma de dizer que ele baseia a eleição sobre o que ele mesmo faria no futuro.

Isto é, se Deus é aquele que concede fé a quem quer que ele escolhe, e se os homens não podem gerar fé em e por si mesmos, então o fato do pré-conhecimento se referir a uma mera presciência não estabelece uma diferença essencial para a doutrina da eleição. Neste caso, visto que Deus conhece a si mesmo, visto que ele conhece seus próprios planos e propósitos, e visto que ele conhece sua própria decisão com respeito a como e a quem ele distribuiria fé, permanece o fato de que a eleição é baseada somente na vontade soberana do próprio Deus, e não em alguma condição prevista nas criaturas.

Portanto, não é suficiente para os oponentes da doutrina bíblica afirmar que o pré-conhecimento significa mera previsão ou presciência, mas eles devem estabelecer também que a fé não é um dom de Deus, e que os homens são dispostos e capazes de gerar em e por si mesmos fé em Jesus Cristo, e que mesmo na condição depravada deles, eles ainda estão dispostos e capazes de escolher o que é espiritualmente bom, isto é, aquilo que é contra o pecado e a incredulidade, e aquilo que é o oposto da [suposta] disposição espiritual deles.

A Bíblia ensina que a fé que é para salvação é um dom de Deus (Efésios 2:8) e que a incredulidade está sob o controle direto de Deus (João 12:39-40). Deus dá fé a quem quer que ele escolhe, e ele ativamente faz com que o restante permaneça em incredulidade. Se nossos oponentes tentam refutar isto, eles permanecem em desafio aberto contra a Escritura e assim, cometem um crime que é merecedor de reprimenda oficial, se não excomungação. Mas a menos que eles refutem isso, a falsa concepção deles de pré-conhecimento não contribui em nada para a tentativa de negar a doutrina bíblica da eleição.

Dito isto, o pré-conhecimento de fato não se refere à capacidade de predizer o futuro duma maneira passiva, isto é, conhecer sobre o futuro sem causá-lo. Em minha pesquisa admitidamente limitada sobre a Primeira Carta de Pedro, todos os comentaristas reconhecem que pré-conhecimento significa algo mais do que uma mera previsão. Mas talvez isto signifique que eu li apenas bons comentários.

Agora, há um elemento pessoal no pré-conhecimento, mas antes de abordá-lo, devemos primeiramente mencionar a natureza do conhecimento de Deus do futuro. Visto que Deus de fato é soberano sobre todas as coisas, como a Bíblia ensina, não somente no sentido de arranjar as coisas de acordo com a sua vontade, mas no sentido de causar coisas de acordo com a sua vontade, então não há tal coisa como um conhecimento passivo em Deus, quer de coisas passadas, presentes ou futuras. Visto que Deus é soberano neste sentido, então isto significa que a soberania e o conhecimento de Deus estão de fato unidos. Ele conhece todas as coisas porque ele causa todas as coisas, e ele conhece a si mesmo perfeitamente.

Como ele declara em Isaías 46:10: “Desde o início faço conhecido o fim, desde tempos remotos, o que ainda virá. Digo: Meu propósito permanecerá em pé, e farei tudo o que me agrada”. Ele pode fazer conhecido o futuro não porque ele descobre passivamente o que acontecerá, mas porque tudo está em seu controle direto e ele sempre faz o que lhe agrada. Visto que ele conhece tudo o que ele causará no futuro, naturalmente ele conhece também tudo o que acontecerá no futuro.

Pré-conhecimento é ainda mais específico do que isto, visto que em nosso contexto o “conhecimento” inclui um elemento pessoal. Na Bíblia, este conhecimento envolve um cuidado paternal amoroso, e que este é o seu “pré-conhecimento” indica que Deus escolheu dirigir este cuidado para com a criatura antecipadamente, mesmo na eternidade antes da criação do mundo.

Ele diz para Jeremias: “Antes que eu te formasse no ventre materno, eu te conheci” (Jeremias 1:5, ARA). Certamente “eu te conheci” aqui não pode significar “eu te descobri”, pois de outra forma isto implicaria que a própria idéia de Jeremias ou pelo menos sua concepção física tinha ocorrido aparte de Deus, e que Deus descobriu isso somente após ter acontecido. Mas Deus diz: “eu te conheci” antes “que eu te formasse”. Ele tinha concebido Jeremias em sua mente e ali tinha estabelecido um relacionamento amoroso e intencional com ele, antes de formá-lo de fato no ventre. O “conhecimento” aqui é, pelo menos parcialmente, relacional.

Então, para oferecer um exemplo negativo, Mateus 7:23 declara que o Senhor dirá a alguns: “Nunca os conheci. Afastem-se de mim vocês, que praticam o mal!”. Certamente isto não pode significar que o próprio Deus nunca esteve ciente das ações ou até mesmo da própria existência deles. Pelo contrário, isto significa que Deus nunca teve uma relação intencional e amorosa com eles, como ele teve com Jeremias e como ele tem com todo cristão, com toda pessoa a quem ele decidiu salvar da morte e do inferno.

Talvez para clarificar o significado e prevenir o mal-entendimento, algumas traduções abandonam a palavra pré-conhecimento e simplesmente dizem “escolher”, ou algo com este efeito. Mas como temos visto, “pré-conhecimento” tem um significado específico que é valioso para um entendimento pleno e apropriado da natureza de Deus e do seu cuidado amoroso eterno para com os seus eleitos. Assim, a palavra deveria ser retida, mas uma explicação na notas dos tradutores seria útil. Pelo menos uma tradução diz “pré-amados”. Há desvantagens nisto, mas ela faz o significado imediatamente mais claro no português. Neste caso, eu sugeriria uma nota de rodapé que declare o original como “pré-conhecimento”.

Traduzido por: Felipe Sabino de Araújo Neto
http://www.monergismo.com/

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