quarta-feira, abril 26, 2006

Comentário sobre 1 Pedro (1)

INTRODUÇÃO

Pedro, originalmente um pescador, foi escolhido por Cristo para se tornar um dos doze apóstolos. Ele era ávido, impetuoso e franco. A princípio sua fé carecia de substância e ele sobreestimava sua própria devoção a Cristo. Quando seu mestre foi arrastado para ser torturado e crucificado, ele o negou três vezes por medo, jurando que ele nem mesmo conhecia aquele homem. Após isso, ele ficou envergonhado e chorou amargamente. Mas Cristo o restaurou, encheu-o com o seu Espírito e ele se tornou um porta-voz proeminente entre os apóstolos.

Sua vida nos ensina que nossa fidelidade a Deus não é algo que seja inerente em nossa personalidade, e que não temos “livre-arbítrio” para simplesmente decidir nos tornarmos discípulos fiéis. Mas nossa fidelidade ao Senhor é ela mesma uma obra da sua graça soberana, de forma que se somos fiéis a ele, isso não é algo que devemos a nós mesmos, mas que devemos a ele! Não há nenhum lugar para vanglória, mas somente para louvor e gratidão.
Ele se identifica como o autor da Primeira Carta de Pedro (1:1), e declara que escreve da Babilônia (5:13), que é mui provavelmente um nome enigmático para Roma. Há alguma discussão sobre o papel de Silas na escrita desta carta (5:12), quanto a se ele é meramente seu portador, ou se ele tem uma parcela no polimento do idioma, ou se ele é até mesmo aquele que colocou os pensamentos de Pedro em palavras. Embora esta seja uma questão de interesse, ela não perturba o fato da autoria de Pedro, desta carta vir de uma inspiração divina através do apóstolo e que ela foi enviada com a sua aprovação.

Comentários frequentemente datam esta carta a algum tempo entre 60-68 d.C., e até mesmo 63-64. Apesar de estar em concordância substancial com estes argumentos, há um que eu acho problemático. Embora não seja importante identificar o ano preciso no qual a carta foi escrita, visto que este argumento tem a ver com como alguém interpreta uma passagem significante na carta, ela é digna de menção.

Em Julho de 64 d.C., um grande incêndio surgiu em Roma, o qual destruiu inúmeras construções e deixou seus cidadãos desabrigados. Quando a suspeita caiu sobre o imperador Nero, ele distraiu a cólera do povo colocando a culpa sobre os cristãos, que por algum tempo tinham estado pregando que o mundo seria um dia julgado e pereceria no fogo. Não era muito difícil para Nero distorcer o ensino e então caluniar os cristãos com o mesmo.

Alguns estudiosos acham impossível reconciliar a perseguição mortal que se seguiu com a admoestação em 1Pedro 2:13-17 de que os crentes devem se submeter a “toda autoridade constituída entre os homens” e a “honrar o rei”. Isto é dado como uma forte razão para datar a carta a algum tempo antes da perseguição sob Nero, de forma que ela deve ter sido escrita antes do grande incêndio de 64 d.C.

Mas o argumento é defeituoso, de forma que mesmo que a carta tenha sido escrita em 64 d.C. ou antes disso, o exposto acima não deveria ser considerado como uma razão convincente para adotar a data. Um dos pontos principais de Pedro na carta é que os cristãos deveriam refutar as calúnias contra eles através do seu bom comportamento. E assim, a admoestação para se submeter ao governo é precisamente o que deveríamos esperar, assim como é consistente com o que o Novo Testamento ensina em outro lugar (Romanos 13:1-7). Exceto nos casos onde o cristão deve escolher entre Deus ou o homem, ele deve ser uma pessoa obediente à lei da nação onde ele reside.

Quanto à audiência pretendida, Pedro endereça sua carta aos “eleitos de Deus, peregrinos dispersos no Ponto, na Galácia, na Capadócia, na província da Ásia e na Bitínia”. As localizações nomeadas aqui cobrem a maior parte da Ásia Menor, ou a atual Turquia. As palavras traduzidas como “estrangeiros no mundo, dispersos...” (NIV) é melhor traduzida na HCSB como “residentes temporários da Dispersão”. O termo “Dispersão” (diasporas) refere-se tipicamente aos judeus dispersos por todos os territórios gentílicos, e por esta razão, alguns estão convencidos de que os leitores primários da carta eram judeus. Contudo, pode ser que Pedro esteja aplicando aos cristãos um termo que era previamente reservado aos judeus. Isto está inteiramente de acordo com a doutrina do Novo Testamento (Gálatas 6:16).

Contrário a opinião de alguns, a abundância de citações do Antigo Testamento não é uma evidência de que os leitores pretendidos eram principalmente judeus, como se não esperasse que os gentios respeitassem ou tivessem algum conhecimento do Antigo Testamento, mesmo que eles fossem cristãos.

Por outro lado, um versículo como 1Pedro 2:10 indica fortemente leitores gentios: “Antes vocês nem sequer eram povo, mas agora são povo de Deus; não haviam recebido misericórdia, mas agora a receberam”. Esta é uma alusão às palavras de Oséias, as quais Paulo cita e aplica à salvação dos gentios em Romanos 9:23-26:

Que dizer, se ele fez isto para tornar conhecidas as riquezas de sua glória aos vasos de sua misericórdia, que preparou de antemão para glória, ou seja, a nós, a quem também chamou, não apenas dentre os judeus, mas também dentre os gentios?

Como ele diz em Oséias: “Chamarei ‘meu povo’ a quem não é meu povo; e chamarei ‘minha amada’ a quem não é minha amada”, [Oséias 2:23] e: “Acontecerá que no mesmo lugar em que se lhes declarou: ‘Vocês não são meu povo’, eles serão chamados ‘filhos do Deus vivo’”. [Oséias 1:10]

É para estas pessoas que Pedro escreve: “Amados, insisto em que, como estrangeiros e peregrinos no mundo, vocês se abstenham dos desejos carnais que guerreiam contra a alma” (2:11). Quer judeu ou gentio, todos os cristãos são em um sentido “estrangeiros no mundo”, tendo sido regenerados, e chamados para fora do falso ensino e das práticas ímpias dos incrédulos. Mas por causa deste e outros versículos (1:18, 4:3), alguns até mesmos contendem que a carta foi escrita principalmente para leitores gentios.

Após pesar os vários argumentos, estou contente em concordar com aqueles que concluem que a carta foi pretendida para uma audiência mista, consistindo tanto de judeus como de gentios. De qualquer forma, o ponto mais importante é que a carta é para “os eleitos de Deus... escolhidos de acordo com o pré-conhecimento de Deus Pai” (1:1-2). Em outras palavras, sua autoridade e ensino se aplicam a todos os cristãos de todos os lugares, e em todas as gerações. Através desta carta do apóstolo, Deus fala ao seu povo escolhido, encorajando e admoestado-lhes em sua peregrinação, dizendo-lhes como se comportar como um sacerdócio real e uma nação santa, mesmo em meio à adversidade e perseguição (5:12).

Traduzido por: Felipe Sabino de Araújo Neto

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