quinta-feira, abril 27, 2006

Comentário sobre 1 Pedro (2)

1 PEDRO 1:1-2

Pedro, apóstolo de Jesus Cristo,

aos eleitos de Deus, peregrinos dispersos no Ponto, na Galácia, na Capadócia, na província da Ásia e na Bitínia, escolhidos de acordo com o pré-conhecimento de Deus Pai, pela obra santificadora do Espírito, para a obediência a Jesus Cristo e a aspersão do seu sangue:

Graça e paz lhes sejam multiplicadas.

Quando você compra uma ferramenta eletrônica, ela mui provavelmente vem com um manual de instrução. O manual típico começa te agradecendo pela compra. Ele então te assegurará que você fez uma sábia decisão afirmando que o item é um produto de qualidade e durabilidade, e com uma grande probabilidade te servirá durante anos, se não por toda a vida. Então, ele pode fornecer um breve sumário das vantagens e características do produto.

Algumas vezes os fabricantes parecem um pouco presunçosos, de forma que ao invés de agradecer aos consumidores em seus manuais, eles começam congratulando-os. Talvez eles desejem parecer confiantes sobre os seus produtos, ou talvez este seja um artifício psicológico para assegurar o consumidor sobre a qualidade dos produtos que eles compraram, como se eles fossem especialmente afortunados por possuí-los. Outro motivo por detrás destas instruções pode ser aliviar a culpa do comprador, isto é, quando o consumidor lamenta sua decisão após ter feito a compra.

Mas quer os manuais comecem agradecendo os compradores ou congratulando-os, eles nunca falham em reconhecer os papéis dos fabricantes e consumidores, e o relacionamento entre eles. Os fabricantes produzem itens, mas depende dos consumidores comprá-los ou não. A única coisa que os fabricantes podem fazer é cortejar compradores potenciais. Eles não podem fazer mais nada para que estas transações aconteçam.

Agora, é um erro mais sério pensar que nosso relacionamento com Deus, ou o modo como chegamos à salvação, é algo como o relacionamento entre um fabricante e seus consumidores. Em muitos círculos, contudo, isto está muito perto de como a salvação é apresentada. Deus tornou a salvação possível, e agora depende do homem decidir se ele quer aceitá-la. Deus pode apenas cortejá-lo, mas o homem é o senhor do seu próprio destino, e até mesmo do seu destino eterno.

Esta falsa perspectiva envolve uma perversão grosseira da natureza de Deus, da natureza do homem, e da natureza da salvação. O ensino denuncia uma tamanha ignorância, distorção e até mesmo rejeição da Escritura, que os cristãos professos que abraçam esta escolha de pensamento poderiam também escrever a sua própria Bíblia.

A Bíblia não diz para o cristão, “Obrigado por escolher a Jesus Cristo”, ou nem mesmo: “Congratulações por sua sábia decisão”; antes, ela diz: “Vocês não me escolheram, mas eu os escolhi” (João 15:16). Óbvio, entender erroneamente ou até mesmo reverter esta verdade fundamental em nossa doutrina de salvação é debilitar o relacionamento de uma pessoa com Deus desde o próprio início. E se esta pessoa realiza a obra do ministério, isso é espalhar heresia.

Nenhum fabricante ousaria dizer para os seus consumidores: “Nós desprezamos o seu dinheiro! Suas posições e realizações não significam nada para nós! Você foi selecionado para possuir um dos nossos produtos somente por causa da nossa graciosidade, sem consideração para com o seu status ou valor. Este é um privilégio especial pelo qual você deve ser eternamente grato, e por causa disso, você deve nos servir para sempre”.

Por outro lado, este é o ensino exato da Escritura com respeito ao nosso relacionamento com Deus e a natureza da salvação. Isto é assim porque quando você está tratando com a fé cristã, você não está tratando com um mero homem, e nem mesmo com um super-homem, mas com um Deus absolutamente soberano e poderoso. Ele não tem necessidade de nada que você lhe dê, como se você pudesse dar-lhe algo, mas você precisa dele para te dar, e você sempre estará inteiramente à sua mercê. As pessoas se esquecem algumas vezes disso, ou simplesmente recusam reconhecer o fato.

Pedro começa, então, não agradecendo os cristãos, como se eles tivessem feito um favor a Deus ao crer no evangelho. Mas ele começa chamando-os de “eleitos” ou “escolhidos”. As pessoas crêem no evangelho e recebem a salvação, não porque elas têm um livre-arbítrio, e não porque em si e de si mesmas elas decidiram ter fé em Jesus Cristo. Antes, todo aquele que crê no evangelho o faz somente porque Deus escolheu salva-lo, mudar sua natureza interior e produzir fé nele.

Sim, aquele que é salvo deve crer no evangelho, e isto envolve algo da sua parte, em que ele deve entender e se decidir sobre o evangelho. Contudo, a fé no evangelho não vem de forma alguma da própria pessoa – o entendimento é soberanamente dado por Deus, à medida que ele remove a cegueira da mente e a ilumina, e o assentimento deliberado é produzido nele pelo poder de Deus, como um dom que ele dá somente para aqueles a quem ele escolheu. Assim como Deus ativa e diretamente controla a mente de todo incrédulo, compelindo a sua natureza má e impedindo-a de crer no evangelho, Deus também ativa e diretamente controla a mente de toda pessoa que se converte a Jesus Cristo, fazendo-a crer na mensagem do evangelho.

É uma falsa doutrina sugerir que Deus fornece a mera possibilidade de salvação, e que depende de cada indivíduo realizá-la quando ele crê no evangelho por seu próprio livre-arbítrio. Pelo contrário, a Bíblia nega qualquer livre-arbítrio ao homem, e o homem depravado e inconverso é mantido em cativeiro pelo poder do próprio Deus, mas é Deus quem fornece tanto a possibilidade como a concretização da salvação para os seus escolhidos.

Traduzido por: Felipe Sabino de Araújo Neto
www.monergismo.com

2 comentários:

Vagner Tavares disse...

Excelente iniciativa Felipe. Que o Senhor continue te usando como instrumento afinado na tradução de textos reformados, e em particular, os escritos de Vicente Cheung, prolífero escritor reformado. Abraços.

Natan de Oliveira disse...

A analogia que ele faz do fabricante com a postura diante do chamado do Evangelho... é fantástica.
Joga por terra a idéia do Jesus-Evangelho produto.