Agora, embora a Bíblia se refira a Deus como o oleiro e à criatura como o barro, há algumas pessoas que alegam afirmar as doutrinas da soberania divina e da eleição, mas então começam a falar como se Deus tirasse suas mãos do torno de oleiro e a maldade humana simplesmente girasse e viesse à existência por si só. Somente após isso Deus seleciona certos indivíduos para a salvação.
Mas isto também é falsa doutrina e uma rejeição de Deus e da Escritura. Essa visão têm similaridades com o dualismo, deísmo e com as visões pagãs dos deuses. O único e verdadeiro Deus nunca larga o torno do oleiro, mas a partir dele ele forma tudo quanto deseja, quer bom ou mal, incluindo aqueles que ele designou e escolheu para a salvação, bem como aqueles que ele designou e escolheu para condenação.
Todavia, o controle direto de Deus sobre o mal não o torna mal. Qualquer mal entendimento aqui é provavelmente devido a suposições injustificadas e uma tendência de julgar Deus como uma criatura. “Se eu fizesse isso, seria considerado um criminoso!”. Uma reclamação como esta é estúpida até mesmo num nível humano. Se eu parasse o tráfego e investigasse os carros, eu seria considerado um criminoso também – mas isto porque eu não sou um policial!
Que as pessoas julgam a Deus como se ele fosse uma criatura denuncia a pecaminosidade e desacato delas. Aqueles que rejeitam a doutrina bíblica da soberania divina e aqueles que aceitam somente parte dela – isto é, aqueles que rejeitam menos dela – deveriam eventualmente encarar o fato de que eles não são Deus, e que Deus não é uma mera criatura. Deus possui direitos absolutos e ilimitados sobre a sua criação.
É alegado que há uma tensão entre a soberania divina e a liberdade humana. Mas não há nenhuma tensão, pois não há tal coisa como liberdade humana – a soberania divina é completa e absoluta. A Bíblia não ensina tanto a soberania divina como a liberdade humana, mas ela ensina tanto a soberania divina como a responsabilidade humana. A falsa doutrina resulta quando as pessoas confundem responsabilidade com liberdade, ou quando elas assumem que responsabilidade pressupõe liberdade, de forma que os humanos são responsáveis somente se forem livres.
Contudo, não há nenhuma relação necessária entre responsabilidade e liberdade – a relação é puramente imaginária, e inteiramente anti-bíblica e irracional. Por definição, uma pessoa é responsável se ela deve prestar contas a alguém por seus pensamentos e ações. Assim, os humanos são responsáveis diante Deus se Deus decidiu e decretou que eles deveriam prestar contas por seus pensamentos e ações. Deus de fato decidiu e decretou isso; portanto, os humanos são responsáveis diante de Deus por seus pensamentos e ações.
A liberdade humana não tem nenhum lugar lógico na discussão de forma alguma. De fato, o exposto acima mostra que a responsabilidade humana está na realidade fundamentada somente na soberania divina, sobre o que Deus decidiu e decretou, de forma que sejamos responsáveis precisamente porque Deus é soberano e nós não somos livres. Novamente, se os nossos pensamentos e ações são controlados por Deus, a liberdade humana não existe, e ela não encontra nenhum lugar lógico para ser introduzida na discussão.
Esta visão bíblica e racional tem sido falsamente acusada de minar a responsabilidade humana, mas o contrário é verdadeiro. Nossos oponentes alegam sustentar a responsabilidade, mas eles fazem isso, pelo menos parcialmente, baseando a responsabilidade na liberdade. Contudo, não estamos cientes de nenhum cristão professo que atribui ao homem liberdade total, no sentido de que o homem é tão livre e capaz quanto Deus, e como se ele tivesse liberdade ilimitada e capacidade de criar, recriar, transformar, e assim por diante. Certamente, uma pessoa que sustenta tal visão não seria capaz de defendê-la, e nem seria um cristão. Antes, até mesmo em sua falsa doutrina, a liberdade sobre a qual esta responsabilidade está baseada é pequena e relativa, não completa e absoluta.
Por outro lado, nossa visão coloca a responsabilidade humana inteiramente sobre a soberania divina – isto é, sobre a decisão soberana de Deus de julgar, sobre sua onisciência para conhecer, e sobre sua onipotência para executar sua vontade. Portanto, em nossa visão, os humanos são tão responsáveis quanto Deus é soberano. Assim como Deus é totalmente soberano sobre o homem, o homem é totalmente responsáveis diante dele. Não pode existir nenhuma visão mais forte da responsabilidade humana do que isto. Visto que não há espaço para Deus ser mais soberano, não há espaço para o homem ser mais responsável. Por necessidade, todo aquele que discorda disto tem uma visão mais fraca da responsabilidade humana.
Mas nossos oponentes minam tanto a soberania divina como a responsabilidade humana. Eles pensam que há uma “tensão” dentro da Bíblia, e que deveríamos afirmar ambos os lados desta tensão, embora eles simulem uma reverência ao alegar que não há nenhuma contradição real. A tensão real, contudo, é entre a falsa doutrina deles e o ensino bíblico. Eles discordam de Deus, e o censuram por causa da Bíblia. Eles acusam aqueles que aderem à Escritura como não-ortodoxos, mas isto é somente verdadeiro se eles definirem ortodoxo pela própria opinião deles e não pela revelação divina. A solução apropriada para eles é exibir arrependimento sincero e experimentar a renovação da mente.
Traduzido por: Felipe Sabino de Araújo Neto

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