quarta-feira, maio 17, 2006

Comentário sobre 1 Pedro (22)


A terceira implicação a partir do que temos estabelecido sobre a unidade da revelação bíblica é que devemos rejeitar a doutrina do dispensacionalismo. Especialmente perigosa é uma versão extrema que pensa que o povo de Deus no Antigo Testamento obteve a salvação de uma outra forma, ou seja, não através da fé na pessoa e obra de Jesus Cristo. Ou, em nosso contexto, devemos rejeitar qualquer doutrina que diz que não havia “cristãos” no Antigo Testamento.

Nunca devemos supor que as pessoas eram então salvas pelas obras, ou por uma fé geral em Deus, ou por uma misericórdia especial que não requeria fé consciente em Jesus Cristo. Antes, devemos insistir que o único tipo de salvação que já existiu é a salvação cristã, que a única fé verdadeira sempre foi a fé cristã, e que tem sido assim desde o tempo de Adão, e não desde o tempo de Cristo.

Todavia, Pedro explica pelo menos uma diferença entre os profetas do Antigo Testamento e os crentes do Novo Testamento. E o ponto de Pedro nesta passagem se afixa sobre esta diferença (veja v, 13). Como temos visto, a diferença não é que o povo de Deus no Antigo Testamento cria em outra mensagem, ou que eles não conheciam nada sobre o evangelho de Jesus Cristo; antes, a diferença é que, embora eles conhecessem e cressem no mesmo evangelho para salvação, eles viviam num tempo de expectação, enquanto nós vivemos num tempo de cumprimento. Como desprezamos a graça de Deus e insultamos os profetas, se falhamos em apreciar esta diferença, e a posição privilegiada que Deus nos deu! Se dependesse da escolha deles, os profetas teriam trocado de lugar conosco alegremente.

Jesus diz em Mateus 13:17: “Pois eu lhes digo a verdade: Muitos profetas e justos desejaram ver o que vocês estão vendo, mas não viram, e ouvir o que vocês estão ouvindo, mas não ouviram”. Isto não significa que estes “profetas e justos” não sabiam nada sobre a vinda de Cristo ou sua obra e mensagem, pois se este fosse o caso, eles não teriam desejado ver e ouvir o que aqueles no tempo de Cristo estavam vendo e ouvindo. Mas eles conheciam o suficiente sobre estas coisas para que pudessem desejar ver e ouvi-las, desejar viver no tempo quando elas se tornariam verdadeiras, no tempo quando suas próprias profecias seriam cumpridas.

O que Pedro diz é que os profetas falaram sobre “a graça que estava para vir” (NIV), e eles “investigaram e examinaram, procurando saber o tempo e as circunstâncias para os quais apontava o Espírito de Cristo que neles estava”. Eles então receberam a revelação que eles “estavam ministrando, não para si próprios, mas para vocês”. Assim, como Paulo escreve: “Essas coisas aconteceram a eles como exemplos e foram escritas como advertência para nós, sobre quem tem chegado o fim
[1] dos tempos” (1Coríntios 10:11). Assim, esta é a diferença, e esta diferença é tão significante que Pedro descansa sobre ela, ou antes, na implicação extraída dela, o ponto que ele está para estabelecer no versículo 13.

A implicação extraída da diferença é que os leitores de Pedro, e de fato, todos aqueles que creriam desde a vinda de Cristo, têm o privilégio de viver no tempo do cumprimento de tudo o que os profetas disseram sobre esta grande salvação. Os profetas desejaram experimentar eles mesmos tudo o que o Espírito tinha predito, mas este não lhes foi concedido; antes, Deus escolheu que eles vivessem naqueles tempos. A declaração de que “até os anjos anseiam observar essas coisas” (v. 12, NIV) serve para reforçar o mesmo ponto. Os profetas investigaram e os anjos observam, mas sobre vocês feio o cumprimento destas coisas.

[1] Nota do tradutor: “Cumprimento dos tempos”, na versão do autor (NIV).

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